A rainha Carlota Joaquina foi "maquiavélica, apesar de ser uma católica sincera", defende o historiador italiano Marsílio Cassotti que, na biografia sobre a mulher de D. João VI, argumenta que as supostas infidelidades "são rumores"."Foi uma mulher maquiavélica, apesar de ser autenticamente religiosa, até fundamentalista", disse à Lusa o historiador, que refuta os argumentos de que alguma vez tenha sido infiel ao Rei, como apontavam os detractores da soberana.
"Se alguma coisa houve [extra conjugal], ou Carlota foi muito astuta - pois nada chegou aos dias hoje, não há documentação ou indício - ou teremos de concluir que de facto não houve nada", enfatizou o historiador.
Cassotti estudou também Maria Antonieta, mulher do rei francês Luís XVI, e Maria Luísa de Parma, casada com o rei Carlos IV de Espanha, e concluiu que "a todos estas mulheres calculadoras, maquiavélicas e intrigantes, a dada altura os seus detractores, não tendo outro argumento, apontaram-lhes o moral. Maria Antonieta teria tido um filho do conde de Fersen, Maria Luísa teria tido um do primeiro-ministro Manuel de Godoy, e Carlota de um serviçal da quinta do Ramalhal [Sintra]".
Na obra "Carlota Joaquina, o pecado espanhol", editada pela Esfera dos Livros, Cassotti traça o percurso da rainha desde Madrid, onde nasceu, até à morte, em 1830, aos 55 anos, muito debilitada, "sofrendo dores horrorosas nas articulações".
"Finalmente Carlota Joaquina falava verdade. " vista dos seus cortesãos padecia e estava de facto doente", salientou o autor, referindo que a mulher de D. João VI "várias vezes faltara à verdade, inventando estar doente, para, por exemplo, não jurar a Constituição [liberal] de 1820". "De certa forma - acrescentou - este seu final dignificou-a aos olhos do povo, e terá morrido satisfeita, pois o seu filho D. Miguel [absolutista] ocupava o trono".
O historiador afirmou à Lusa que a rainha "utilizou todos os que viviam à sua volta, desde o marido aos filhos, e até a si própria".
A soberana, considera Cassotti, "era uma mulher com uma inteligência acima da média e sabia disso, desde menina que lho reconheciam, o problema foi a interpretação que fazia da realidade, muito limitada pelo ambiente em que viveu e a educação irregular que teve, que não lhe permitia compreender as contradições do seu próprio carácter".
A filha de Fernando VII de Espanha tinha "um temperamento belicoso, ambiciosa, mas, apesar de calculista, não era fria, era até afectiva e ligava-se às pessoas, há até relatos da sua generosidade".
Com a sogra, a Rainha D. Maria I, estabeleceu laços de afectividade e terá sido a pessoa que "melhor a compreendeu e a recebeu como uma neta".
Cassotti refere, a título de exemplo, um episódio em que a rainha e Carlota, ainda infanta, "saíram juntas, sem cortejo, a rainha montada num cavalo, Carlota numa burra, e foram pescar na lagoa de Óbidos".
Outro facto "pouco conhecido" é que Carlota Joaquina, apesar de "reaccionária", foi jurada herdeira da Coroa de Espanha por parlamentares liberais e conservadores reunidos em Cádis [1812], o único território livre do poder napoleónico que ocupara o trono de Madrid.
Fonte:http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1288585
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